O nosso texto obteve o primeiro lugar no concurso “Ser Diferente”, promovido pela Câmara Municipal de Guimarães.

 

Parabéns ao 6º E!

 

 

 

Um M a descobrir

 

Era o início da segunda semana de aulas. A manhã de Setembro anunciava-se soalheira e de céu limpo e convidativo para tudo, menos para uma segunda-feira de aulas. Junto à entrada da escola, os pais mais atrasados davam beijos apressados e os últimos conselhos: “Porta-te bem!”, “Come o teu lanchezinho!”, “Boa sorte!”. As ordens eram claras: todos os alunos deviam ir para o campo de futebol e agruparem-se por turma – era o dia do Corta-mato.

O espaço que era amplo, depressa ficou cheio de cores, de alegrias, de sorrisos. Durante as férias, toda a escola foi lavada de branco e os muros que envolviam o campo desafiavam toda aquela negrura do alcatrão.

A turma do 5º E juntou-se precisamente numa sombra envergonhada dum carvalho que mais sabia daquela escola; eram já quase três dezenas de anos a observar gerações sucessivas de alunos: as suas brincadeiras, os seus receios, os seus namoricos, as suas vitórias. Mónica fez-se logo notar. Tinha doze anos e esta era a segunda vez que estava a frequentar o 5º ano. Apesar de ser relativamente baixa, tinha uma postura de líder. A sua voz certeira e apelativa deixou a turma rendida: “Colegas, nada há a recear, enquanto eu estiver no vosso meio, o 5º E será o maior”. Todos estavam já habituados àquela ousadia da Mónica. A Joana pensou: “Bem me disse a minha mãe para ter cuidado com as más companhias!”. Mais confiante, a Matilde lançou um olhar de simpatia quando viu que toda a turma depositou um sorriso de confiança na Mónica. O rosto do Jorge não enganava: “Ora cá está uma boa aliada para as minhas travessuras”.

Inesperadamente, alguém perguntou:

– Quem escreveu aquela frase ali no muro?

Em letra apressada, lia-se: ‘‘Rui. Gosto de ti. M.’’. Foi o alvoroço total. Naquele momento, já todos os olhares incriminavam a turma do 5º E, pois era a que estava mesmo juntinho ao muro ferido de giz azul. A chegada do director de turma fez aparecer as razões da inocência: “Eu nunca tive ali!” dizia um, “Aquela letra não é minha!” adiantava outro, todos falavam receosos do olhar castigador do professor. A suspeição caiu sobre todos os nomes femininos da turma começados por M: Mafalda, Maria, Matilde, Marta, e claro, Mónica. As inocências ganharam força: “Não olhem para mim!”, “Eu não fui!”, “Eu não era capaz!”, choramingou Mafalda. Os olhares condenatórios começaram a pousar no rosto silencioso da Matilde. Decidida, irrompeu pelo meio dos colegas e apanhou o resto do giz que estava no chão. Com a mão certeira, completou a frase: “Rui. Gosto de ti. Marta”. Inesperadamente, surge uma voz esganiçada: “Não é nada a …” e logo Maria se silenciou. É, pela boca morre o peixe.

O professor felicitou Matilde e ela agradeceu com o seu olhar meigo, pois era surda-muda.  

 

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