Eu tinha o privilégio de estar rodeada de livros, o meu Pai comprava todas as colecções do Circulo de Leitores, e a minha Mãe comprava todos os livros de romances que saíam de novo na Livraria Dimas, que cantinho maravilhoso era esta livraria, todos os dias no fim da escola eu lá marcava presença!

Entrava e o Sr. Dimas perguntava, “Correu bem o teu dia na escolinha Raquelita?”, e  eu respondia sempre, “Sim, obrigado, como de costume!”, era a forma mais educada de encurtar a conversa para poder saltar para as histórias dos livros que pareciam reclamos de néon ali a piscar a prender a minha atenção nas prateleiras! É sublime recordar, sinto até o cheirinho da livraria, era uma mistura de aromas, haviam bloquinhos em forma de frutos e cada um tinha o cheirinho da fruta que representavam, as canetas que escreviam a cor-de-rosa e cheiravam á mesma, os cheiro a naftalina característico dos livros mais antigos, aqueles que narravam histórias de índios e cowboys do velho Oeste americano, eram livrinhos pequeninos com letras mais pequeninas ainda, eram os chamados “Livros de bolso”.

Eu lia aleatoriamente, tudo o que me roubava o olhar prendia-me a concentração!
Lia livros de banda desenhada, entre os quais O Pato Donald e o Tio Patinhas, Os Irmãos Metralha, A Mónica que me deixava sempre com uma dor de barriga de tanto rir com as patifarias que o cebolinha lhe fazia, a Heidi, sempre com histórias ternurentas que me faziam chorar, e estes são os que tenho mais presentes nesta área.
Depois havia as histórias de adormecer, como A Branca de Neve e os sete anões, O Gato das botas, Alice no país das maravilhas, O Capuchinho vermelho, O Pinóquio etc.
Mais tarde apareceram os livros das Aventuras dos cinco, e a Mafalda do cartonista Quino, que é uma espécie de Matt Groening mas do meu tempo de menina, e estas eram as minhas preferidas nessa altura porque a Mafaldinha era uma menina muito pertinente, ela abordava com um toquezinho de indignação os assuntos da actualidade com a inocência irreverente de uma criança!

Era uma boa maneira de perceber melhor o mundo dos adultos!
Havia ainda as colecções que guardo até hoje, que o meu Pai comprava para mim, são uma espécie de enciclopédias sobre variados temas. À medida que crescia, ia tendo em casa livros que eu escolhia como A lua de Joana ou o Principezinho, ou os livros que o Pai achava que eu ia gostar, como Aquilino Ribeiro ou Camilo de Castelo Branco, mas que infelizmente eu nunca li, pois eram tantos os que eu própria escolhia que ficava sem tempo para os outros; por fim havia também aqueles livros que estudava minuciosamente na escola, o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, e que eu representei em teatro o trecho da entrada de Joane – o parvo, Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, e que me fascinava de tal forma que o meu Pai me comprou um exemplar, era enorme e lindo! A capa era castanha e dura com as letras douradas, e tinha ilustrações lindas das caravelas, mas que perdi numa das mudanças de casa!

Lembro-me que as aulas de Português nesse ano tiveram um gosto a  “muito pouco”, tal era a nossa vontade de aprender, nós fazíamos competições na aula, o professor era o Padre Rosas e ele maravilhava-se com o nosso envolvimento nas aulas!

Hoje, continuo a ler muito, não sou seguidora de nenhum autor em particular, sou daquele tipo de pessoas que tem sempre na prateleira um novo livro à espera que o presente acabe. Às vezes o livro é tão bom, sabe tão bem que vou adiando o fim, para tentar prolongar aquela sensação que só os livros nos sabem dar.
Um livro para mim é um bem essencial, trato-os com muito respeito e carinho, não gosto de dobrar as folhas com o intuito de marcar a página nem de pousar nada em cima para não sujar, e confesso… Não gosto muito de emprestar os meus livros, tenho medo que os tratem mal e que não os devolvam. Espero ter estado à altura do seu desafio Sr. Professor, e aproveito para lançar outro: Trava-línguas, vamos ver quantos conseguimos juntar?

Raquel