I – Uma fisga em Lisboa

O Jorge é um rapaz de doze anos que vive numa aldeia escondida na serra do Marão. Toda a gente gosta dele porque é muito simpático, humilde e responsável. Na escola chamam-lhe “Esparguete”, pois ele é muito magrinho e tem uma grande flexibilidade no seu corpo.

    Um dia, quando as férias de verão estavam a começar, o Jorge recebeu um telefonema que o deixou radiante. O seu primo Carlos, que é professor em Lisboa, convidou-o para ir com ele passar uma semana na capital.

    O Jorge ia realizar o seu sonho: conhecer Lisboa. Pensou logo em fazer a mala. O que levar? “Vou levar a minha fisga!” – pensou ele. A mãe interrompeu o seu pensamento:

    – Jorge, nao te preocupes que eu faço a mala. Tens de ter muito cuidado porque Lisboa é uma cidade cheia de perigos! – advertiu a mãe.

    Estas palavras da mãe não o assustaram. Ele já sabia que Lisboa é uma cidade fantástica e o dia da partida teimava em não chegar. A mala já transbordava de tantos sonhos: a máquina fotográfica para depois brilhar junto da Mariana, sua namorada, aquela camisola que ele tanto estimava (foi com aquela camisola amarela que dizia “I LOVE YOU” que ele despertou o olhar intenso da rapariga dos seus afectos), a fisga para se defender dos possiveis assaltantes.

    Aquela quinta feira tão esperada chegou da melhor maneira. O sol sorria-lhe no rosto. A mãe despediu-se escondendo a tristeza num beijo rápido, mas cheio do carinho. O silvo engasgado do comboio anunciou a partida. O Jorge estava comodamente instalado no seu banco, junto à janela. Ao seu lado estava uma idosa simpática que fazia tricot e teimava em pôr os novelos felpudos no colo dele. Felizmente, a senhora adormeceu  depressa e o Jorge logo atirou os novelos para o chão que rebolaram felicíssimos entre as pernas dos passageiros . Um  petiz mais atrevidote aproveitou logo para dar uns toques.

    As quase quatro horas de viagem passaram rapidamente. Os montes começaram a ficar cada vez mais macios e a maresia refrescava o rosto ansioso do Jorge. Quando o comboio chegou, a azáfama começou. Malas para aqui e para ali, saudaçoes a monte, e até a senhora idosa a gritar pelos seus novelos; o barulho das ruas parecia um trovejar contínuo. O olhar inquieto do Jorge procurava o seu primo Carlos. Lá ao fundo, surgiu uma torre de braço no ar e os primos logo se abraçaram.

    A semana passou rapidamente. O Jorge maravilhou-se com tudo o que viu: Jardim Zoológico, Torre de Belém, Terreiro do Paço, Parque das Nações…

    O último dia foi reservado para um passeio na avenida da Liberdade. Ele gostou de ver todas aquelas árvores rodeadas de espaços verdes, lembrou-se da sua aldeia natal. De repente, ouviu-se um grito lancinante e logo todas as pessoas se afastaram daquele espaço. O Jorge ficou intrigado e foi-se aproximando cuidadosamente. A multidão aumentou rapidamente. Chegou a polícia: “Afastem-se todos! Está aqui uma cobra das venenosas!” – ordenou o guarda.

    O Jorge entendeu estas palavras não como um aviso, mas sim como um desafio. Apanhar cobras era o seu passatempo preferido. Caiu um sìlêncio profundo e inquietante. Com um passo seguro e rosto descontraido, o Jorge foi-se aproximando do tufo verde. A cobra, ao sentir a aproximação, ergueu-se e parecia um ponto de interrogação ameaçador.”tsssssssss” -ouviu se. A multidão que assistia logo recuou mais. Foi então que, levando lentamente a mão ao bolso de trás, o Jorge pegou na sua fisga, apanhou uma pequenina pedra e…  zás, a cobra caiu inanimada. Corajoso como é, pegou nela pela cabeça e, quando ia entregá-la ao guarda, uma rapariga que estava ao pé desmaiou. O Jorge lembrou-se do que tinha aprendido sobre primeiros socorros e rapidamente a socorreu. Agradecida, a jovem deu-lhe um beijo e um jornalista, que entretanto tinha chegado, aproveitou para tirar uma foto.

No regresso a casa, o nosso jovem estava dividido: custou-lhe deixar Lisboa, mas as saudades da sua famìlia falavam mais alto.
O resto das fèrias decorreu sem grandes novidades. O primeiro dia de aulas foi uma animação. A professora tinha uma supresa:

    – Temos entre nós um grande herói! Ora vejam esta notícia com a fotografia do nosso Jorge!

    O Jorge ficou admirado, nunca pensou que a notícia chegasse lá. Quem não gostou nada foi a Mariana que logo aproveitou para lhe mandar o seguinte bilhetinho:

Jorge

Está tudo acabado entre nós!

Vai para junto daquela lambisgóia de Lisboa!!

Mariana.

 

                                                              II – O Beijo

Aquela aldeia, ao longe na serra do Marão, parecia um quadro da Natureza. Espalhava-se pelo vale e todas as manhãs acordava a desafiar o novo dia.

Casas antigas coabitavam com modernas moradias, o que lhe dava um ar turístico. Mas o “ex-libris” de S. Pedro era o rio. As suas águas frescas e límpidas reflectiam as árvores que bordejavam o seu leito. O Jorge adorava dar os seus mergulhos no Fafião. Todas as manhãs cheiravam a rosas e o rosmaninho; o sol brilhava com orgulho e enchia as casas de alegria. As pessoas partilhavam as suas brincadeiras e a solidariedade reinava entre elas.

Mas nem tudo era um mar de rosas. Algumas famílias viviam no limite da pobreza, pois nas redondezas não havia empregos suficientes.

S. Pedro começou a ser conhecida porque, um dia, o presidente da junta teve a brilhante ideia de organizar uma prova de canoagem no Fafião. As condições do espaço eram únicas e depressa a “Fafião Cup” ficou conhecida. Todos os anos, na primeira semana de Junho, S. Pedro da Murrinhanha era invadida por centenas de jovens adeptos da canoagem.

Os campos junto ao rio transformavam se em parques de campismo improvisados; os donos dos campos é que não gostavam muito porque tanta gente concentrada junto ao rio acabavam por estragar os campos de milho.

        O dia 4 de Junho nasceu envolto numa neblina que teimava em não desaparecer. Os autocarros chegavam ansiosos e logo soltavam centenas de jovens ainda meios ensonados, mas o bom dia dos galos era suficiente para os despertar. A “Fafião Cup” ia durar até ao dia 7 e este primeiro dia era dedicado aos treinos. O Jorge fazia parte da organização e, como tal, não podia concorrer, o que o deixou algo triste. No entanto, indirectamente, ele estava em prova, pois a sua Mariana era uma séria candidata ao primeiro lugar. Já iam longe aquelas desavenças que tiveram por causa da rapariga de Lisboa.

              O dia de treinos correu lindamente. Os concorrentes estavam entusiasmados e os resultados provisórios deixavam antever provas bem renhidas. Uma jovem alta e morena estava a dar nas vistas porque destacava-se dos outros concorrentes. A forma como punha os remos a cortarem as águas do Fafião deixava toda a gente boquiaberta.

          O segundo dia foi dedicado às eliminatórias. Todas as equipas deram o seu melhor e as claques estavam ao rubro. No final da manhã, os “Alfacinhas” acumulavam cada vez mais pontos. Os dois pares pareciam invencíveis.

Mas um destacava-se do outro. Era um par misto e a rapariga era a mesma que tinha dado nas vistas nos treinos.

          Jorge, como elemento da organização, teve um certo interesse em conhecer esta pequena grande campeã. O sol já mostrava a sua preguiça e era a hora do merecido repouso à beira-rio.

           – Quero felicitar-te pelos óptimos resultados que estás a obter! – elogiou o Jorge.

          – Obrigada… gosto desta terra! – agradeceu a atleta. Há aqui algo que me dá sorte… – acrescentou.

            – Sou o Jorge e tenho imenso gosto em que estejas na minha terra. – apresentou-se ele.

             – Eu sou a Rita e também estou a adorar a tua terra. – retorquiu. O teu rosto não me é estanho… – adiantou.

            – Realmente, hummmm…  tenho a impressão que também já te vi…  – confirmou o Jorge. Desejo-te, para amanhã, a melhor sorte do mundo. Terei todo o gosto em entregar-te  a taça do 1º lugar!

             A Rita agradeceu pausadamente:

               – Oxalá as tuas palavras sejam proféticas!

              O dia da final chegou mais alegre do que nunca. A grande final era entre os “Alfacinhas” e os “Murrinhanhos”, equipa onde estava a Mariana.

             O Jorge estava em pulgas, dividido entre a Rita que conhecera melhor no dia anterior e a Mariana, a sua namorada de longa data. A pergunta “Quem irá ganhar?” andava de boca em boca. Para o Jorge, aquela jovem de Lisboa tinha fortes probabilidades de vencer. Seria o seu coração que estava a pensar alto?

A prova final foi emocionante. “Os Alfacinhas” ganharam por uma unha negra. A claque que os apoiava explodiu de alegria; os gritos de felicitação sublinhavam a grande vitória. A equipa vencida mostrou um grande fairplay e a Mariana foi cumprimentar os vencedores. No preciso momento em que a Rita retribuía o beijo da Mariana, fez se luz na cabeça do Jorge. “Como é possível? Estou a sonhar!” inquietou se ele.

           O podium estava pronto para a entrega dos prémios. O Jorge, como elemento principal da organização, vai entregar a taça aos “Alfacinhas” e beija a Rita. Nesse momento o céu desabou: aqueles lábios eram os mesmos do beijo que ele recebeu em Lisboa.