Este livro, da escththritora Maria Tereza Maia Gonzalez , que já vai na 24ª por ser simplesmente brilhante, fala-nos de uma rapariga que, ao concluir os seus catorze anos, decide redecorar o seu quarto de branco e põe lá uma lua empoleirada no teto. “Quando quero pensar, coloco-a em posição de quarto crescente e, quando estou triste, rodo-a para o quarto minguante e sento-me até que a tristeza passe.” – escrevia a Joana à sua melhor amiga, que já tinha falecido (palavra que a Joana não conseguia dizer) de overdose. No desenvolver da história, a adolescente passa por sérios problemas, pois os únicos seres que pareciam dar-lhe atenção eram a sua avó Ju e o seu cão Lucas, independentemente de ter os seus pais e o seu irmão (também conhecido por Homem do Cro-Magnon ou Pré-Histórico) a “viver” com ela, e escreve várias cartas à sua amiga Marta, tal como esta (a primeira) que vou apresentar como excerto:

LISBOA, 28 DE AGOSTO

Querida Marta,

    Demorei muito para me resolver, o que não era costume. Para dizer a verdade, não sabia que fazer. Precisava de desabafar, tentar compreender tudo o que aconteceu e, como foste sempre a minha única confidente… Não fazia sentido escrever um diário, pois dava-me a sensação de estar a escrever para mim própria, o que acho um bocado estranho. Talvez seja ainda mais estranho escrever-te, mas é uma forma de manter viva a tua memória, pelo menos até entender o que se passou contigo; pelo menos até conseguir perdoar-te…

    Faz hoje um mês que tu… Não sou ainda capaz de dizer a palavra. Se calhar, é porque não acredito que já estás aqui comigo. É tão difícil acreditar.

    Como sabes, hoje fiz anos. São duas da manhã e estou demasiado excitada para dormir. Vou contar-te o que recebi. A minha mão acedeu finalmente a redecorar o meu quarto – está tal e qual como eu queria! Todo branco (paredes, tapete, colcha, cortina) e até me mandou fazer o baloiço dos meus sonhos: é uma meia-lua de madeira (branca, claro) que está suspensa do teto por uma corrente, mesmo no meio do quarto. É a única no Mundo! Fui eu que a imaginei. Quando quero pensar, coloco-a em posição de quarto crescente e, quando estou triste, rodo-a para o quarto minguante e sento-me até que a tristeza passe. O armário velho foi para o corredor, assim, fiquei com mais espaço para dançar, quando me apetece. (…)

    A avó Ju deu-me uns brincos que usava quando era nova. Disse-me: «Com catorze anos, já tens idade para umas perolazinhas…» Um amor, a minha avó.

    O Homem do Cro-Magnon, como é de costume, estava liso, portanto deve ter pedido uns trocos à mãe e deu-me um chocolate (sabendo perfeitamente que sou alérgica) e um cartão idiota com o desenho de um chimpanzé horrendo, que diz «Tás a ficar velhota!»… Realmente é triste ter um irmão assim, paciência.

    Quanto ao meu pai, deu-me mais um relógio, imagina! Já tenho uma coleção disparatada (como diz a avó Ju), mas ele não deve lembrar-se dos que me deu nos anos anteriores. Provavelmente, mandou a Lisete comprar-me a prenda, é o mais certo. Ele só sai do consultório para operar, como é que podia ter tempo… (…)

    Estou a ficar com sono, finalmente. Preciso de dormir. Espero não sonhar contigo outra vez. É terrível!

    Um beijo da

    Joana

Aceita o desafio de conheceres melhor esta Joana. Este é um livro que te vai fazer pensar.

José Pedro Marques, 6º C