O livro que li chama-se «História de um caracol que descobriu a importância da lentidão». Este livro é do escritor Luis Sepúlveda e nasceu da curiosidade do seu neto Daniel que lhe perguntara: «Porque é tão lento o caracol?»

   A partir deste momento, o autor prometeu-lhe uma resposta e escreveu esta fantástica história.

   Num prado chamado País do Dente-de-Leão, sob a frondosa planta do calicanto, vivia uma colónia de caracóis. Nunca nenhum se aventurara a sair do prado, a conhecer os seus limites, nem a ver a estrada de asfalto. Estavam habituados a chamar uns aos outros simplesmente “caracol” e conformados com um estilo de vida lento e silencioso.

   Mas entre o grupo existia um corajoso caracol que queria conhecer os motivos da lentidão e desejava ter um nome. Mas os seus companheiros mostravam-se indiferentes aos seus desejos. Por isso, e apesar da reprovação dos outros caracóis, embarca numa destemida viagem.

   Certo dia, o caracol ouviu os sussurros de dois caracóis que falavam de um mocho que vivia entre a folhagem da faia mais antiga do prado. Comentavam que ele era bastante sábio. O caracol decidiu ir perguntar-lhe os motivos da sua lentidão. Então lentamente, muito lentamente, saiu do calicanto de madrugada e somente chegou lá à noite.

   O caracol perguntou ao mocho se sabia os motivos da sua lentidão. Este disse que subisse para o seu ramo. Então trepou, lentamente, muito lentamente e quando lá chegou já o sol brilhava. Admirado, perguntou ao mocho por que, sendo dia, estava com os olhos fechados. O mocho retorquiu: «Abro-os à noite e vejo tudo o que há; durante o dia fecho-os e assim vejo tudo o que houve». Depois disse-lhe que era lento porque carregava um grande peso. O caracol não se convenceu e retomou a sua viagem até ao calicanto, lentamente, muito lentamente.

   Encontrou toda a sua colónia entregue ao que chamavam «o costume».

O caracol insistia tanto nas suas preocupações, a injustiça de não ter um nome e conhecer os motivos da lentidão, que um velho caracol ameaçou expulsá-lo do calicanto. Esta ameaça ofendeu muito o caracol, levando-o a sair do calicanto. Antes de partir disse aos seus amigos que só voltaria quando tivesse um nome e descobrisse os motivos da lentidão.

Após uma lenta viagem, o caracol deitou-se numa pedra para descansar, mas esta começou a mexer-se. Descobriu, assim, que estava a falar com uma tartaruga, que lhe daria as respostas certas e as perguntas que lhe faltavam. A tartaruga contou-lhe que já havia vivido com os humanos que lhe deram o nome de Memória e quis, também, batizar o caracol com o nome Rebelde. Memória levou Rebelde a conhecer o extremo do prado e informou-o que os humanos iriam destruir o calicanto. Muito preocupado, Rebelde decidiu voltar atrás, para avisar os seus amigos caracóis. Muitos não acreditaram e os mais novos seguiram Rebelde. Quando este olha para trás tinha toda a colónia atrás de si e sente um grande sentido de responsabilidade.

O rebelde e corajoso caracol parte em aventura … Lentamente, muito lentamente!

Será que o calicanto ficará destruído e Rebelde encontrará um local acolhedor para os caracóis?

  Filipa Jorge Ferreira